Sábado, Julho 12, 2008

Concordância verbal-namita

Possível discussão sobre o dia-a-dia vietnamita:

Madames, playboys, acionistas, detentores do poder em geral começam a verborragia:

"Os pássaros são felizes porque a distância, quando em vôo, não os permitem observar algumas tristezas. Se há distância, há beleza; no foco, a sorte pode ser pequena."

Aqueles em cima do muro (comumente chamdos de sensatos) tentam convencer e dizem:

"Então, ode à impessoalidade? Por favor, não confundam miséria com simplicidade!"

Esquerdistas, pés no chão, perdedores conformados, pobres de bolso (talvez ricos de espírito) retrucam:

O comércio é informal, verdade. Os restaurantes populares (de rua), menos sofisticados do que talvez se deseja, também correto. Mas e o charme das casas antigas? E os delicioso café forte-gelado com leite condensado? Que tal a vida barata e acessível a praticamente todos? E as vielas com senso de comunidade preservado? Não vale o sorriso convidativo dos bêbados da cidade nos botecos se aventurando em conversas com ocidentais que são "todos iguais"? E os rolinhos primavera ou os sanduíches com vegetais e frango enrolados na primeira página do jornal do dia?



O pouco de Saigon (Ho Chi Minh para os mais íntimos) já me bastou.


Sábado, Abril 12, 2008

Nossos bons amigos,

que saudade sentimos já da vez que nos veremos, que vontade de saber o que pensam sobre mesmo o que é insignificante...essas são as opiniões importantes.

Seus problemas partem e se tornam nossos. Existe mais do que internet e linhas telefônicas ligando nossas casas. Existem ruas e pessoas que preenchem o entre e que sabemos apreciar, podendo inclusive virar uma conversa de horas. Existe mais do que também só as ruas e todas as pessoas. Só não existe forma para isso, isso está.

Nos preocupamos com a família do outro porque de certo modo também são nossas. Tanto tempo interagindo que é difícil não aprender e se deixar influenciar. Nunca houve barreiras, é verdade; as portas sempre estiveram abertas.

Foram todos momentos de sublimação das angústias por mais que falássemos delas. A carga que pressiona os ombros estava sendo dividida e adquirindo leveza.


Domingo, Abril 06, 2008

Construção de memórias...

É como se diz, você nasce para crescer, se desenvolver, reproduzir e morrer. Sendo tudo tão simples assim, vivamos como se não fosse necessário fazer nada.

Depois do barulho, sons amenos parecem mais silenciosos. Possível sensação de um dia de novo, espera sem ansiedade.

Eis que o dia acontece mais uma vez. O que não acontecia, agora, tinha sua vez também. Não é necessário carregar a dor do mundo.

Cada um na sua vida, no seu ritmo, mas sempre paralelos. E os encontros serão todas as interseções.

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Chapada Diamantina (um parêntese ao roteiro chinês)

Também tem a sensação de que o passado era mais aconchegante? Não se sente nostalgia do que é novo, talvez porque o passado está repleto de luzes amarelas nas ruas de paralelepípedos com sorveterias na esquina, casas sem portões ou crianças brincando nas praças.

O que fazer ao perceber que algo vai ser extinto? Exaltar o progresso ou proteger o que está deixando de existir criando dias do índio, da árvore, por exemplo?...ambas alternativas parecem corretas.

Se pelo menos conseguíssemos mensurar o tamanho da perda decorrente do desaparecimento de culturas-hábitos-comunidades, talvez as metrópoles não gerariam tanta migração em busca de melhores condições de vida. A propósito, este é um equívoco bastante recorrente, pois ser mais moderno não significa ser melhor porque o acesso aos benefícios é restrito aos que podem pagar. Favelas são a “desvirtude” da modernização inerente aos centros urbanos que não comportam todos os que atraem.



Em Lençóis e arredores, pode-se verificar nitidamente a erosão cultural provocada pela era dos satélites que, apesar de nem poderem ser vistos a olho nu, são essenciais como as moléculas de oxigênio.

De São Paulo, o observador tem a impressão de que já foi o tempo das parteiras*, garimpeiros*, descendentes de escravos*, filhos e pais de santo dos terreiros de Jarê*, pessoas que assumiram status de literatura aos cosmopolitas.

Do interior baiano, as coisas não parecem ter mudado muito do que deveriam ser há décadas. A natureza que não é de plástico e morre contribui bastante com a idéia de preservação de uma época com vida mais simples: as cores da mata se refletem nas construções, a riqueza do solo na variedade dos pratos e sabores, a vida tranqüila na franqueza dos sorrisos.
Fotos abaixo:
* A viagem foi idealizada/organizada pelas ONGs Projeto Bagagem e Grãos de Luz e Griô, proporcionam imersão e vivência cultural em diversas comunidades locais, remando contra a maré da extinção cultural por meio da prática oral...um puta exemplo de organizações bem estruturadas com propostas consistentes e realmente efetivas.

Segunda-feira, Julho 02, 2007

Mekong Delta

A Foz do Rio Mekong no sul do Vietnã é a região onde a guerra assumiu as proporções mais devastadoras no Vietnã.

A região é marcada pela abundância de natureza seja em forma de água, mata ou frutas e vegetais. No Delta acontece semanalmente uma feira flutuante (Cần Thơ) onde os agricultores vendem suas mercadorias e fazem escambo.


A vida parece ser difícil se observada da perspectiva de um morador da cidade. O transporte depende da integração precária de meios terrestres e aquáticos, a mata intimida com suas cobras e insetos peçonhentos. Mas, apesar disso, as pessoas carregam um semblante leve de quem não sabe o que é a conveniência que a vida moderna pode assumir para reclamarem do que têm. É possível que nem queriam saber? Acredito que sim.

Lá, percorri parte do mague que não é “beat” mas tem um “Q” de lado B dos destinos turísticos, comi coquinho que aprendi a descascar depois de uma aula baseada em mímica de uma senhora sem dente de sobrenome simpatia; bebi garapa, água de coco resgatada do topo do coqueiro e vinho de cobra com um pássaro morto dentro do frasco; vi telas para pintura expostas ao sol feitas com massa de arroz que também era usado para fazer pipoca! E eu sempre pensei que entendia tudo sobre pipoca rsrs.
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Đai Đao Tam Kỳ Phô Đô

O nome completo (no título) pode ser laconicamente referido por "Cao Dai" (lê-se tsaodai), religião misteriosa do sul vietnamita onde possui apenas uma igreja e já contou inclusive com exército próprio!

Chegamos justamente em um horário de reza, todos dispostos organizadamente em filas com suas respectivas cores que explicavam a função de cada um no evento aberto para o público curioso. O triângulo logo-tipo da seita simboliza a união de três religiões em um mesmo espaço: taoísmo, confucionismo e, a base, budismo. O olho ao centro do triângulo é o olho do imperador, a quem todos seguem.


O interior da igreja é um espetáculo de cores, esculturas de dragões que por si só já satisfaziam a vista cansada do cinza das cidades.

A música ao vivo “negritava” a distância dos rituais que vemos no ocidente, a concentração dos fiéis ilustrava a seriedade e comprometimento com algo abstrato que não compreendo e não sou cúmplice, mas existe.

Tento não me referir às religiões como meras superstições porque algumas (superstições), de tão banais, contaminam tudo aquilo que carrega seu peso ou conotação. Quando digo superstição não pretendo rebaixar crença à esoterismo, se bem que religiões são intrinsecamente exóticas...ainda mais quando resiste ao tempo isoladamente como esta em pauta.

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Nha Trang - documentário mudo


O homem com chapéu-cartola e os outros com chapéus cônicos e simétricos de palha com quem não conversei, casas com árvores floridas de rosa à porta que não entrei, um mar azul turquesa reflexo do céu que não senti, barcos num estacionamento de mar aberto que não naveguei, redes dispostas cautelosamente à sombra da tarde em que não descansei, uvas verde de aquarela que não comi e bicicletas que não pedalei.

Da janela do ônibus vivi um espectador ausente-onisciente da vida de Nha Trang que certamente não sabia fazer parte do meu documentário mudo e distante ao ar-condicionado.

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